terça-feira, 25 de outubro de 2011

A BANDA (CHICO BUARQUE)

       


           Desde criança escutava, inclusive na voz de Vó Mocinha, “Estava à toa na vida O meu amor me chamou Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor...”, mas, apenas há pouco, após ler o livro “Chico Buarque” de Wagner Homem (2009), re(conheci) essa e algumas outras lindas músicas de Chico Buarque, bem como a história de algumas delas.



                   Em "Chico Buarque" (2009) Wagner Homem enfatiza que “A polarização entre ‘A banda’ e ‘Disparada’...ganhara uma dimensão inimaginável, a ponto de o jornal O Estado de S. Paulo escrever: ‘Desde o finzinho de setembro, só duas torcidas contam: a da Associação Atlética Disparada e a da Banda Futebol Clube’”.
                      E por falar nisso, quem nunca sentiu vontade de sair saltitando atrás desta “banda”?

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor...




            De acordo com Chico, “Primeiro veio a ideia de uma banda passando, depois a música e, finalmente, a letra. Composta em um único dia, na sua casa na rua Buri, na hora do almoço...”
             “A banda” (1966) foi composta para o II Festival de Música Popular Brasileira, que acontecerianos meses de setembro e outubro na TV Record, tendo sido uma das finalistas, ao lado da concorrente “Disparada” de Theo de Barros e Geraldo Vandré.




            Segundo consta no livro, o sucesso foi tal que câmaras municipais de todo o país conferiram o título de cidadão honorário ao cantor e compositor Chico Buarque.


               Abaixo, alguns trechos das minhas letras preferidas de Chico Buarque:

 
“Se todo mundo sambasse Seria tão fácil viver...” (Tem mais samba-1964)
“Hoje o samba saiu procurando você Quem te viu, quem te vê...” (Quem te viu, quem te vê-1966)
“Roda mundo, roda-gigante Rodamoinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração...” (Roda-viva-1967)
“O que é que eu posso contra o encanto Desse amor que eu nego tanto Evito tanto E que no entanto Volta sempre a enfeitiçar...” (Retrato em branco e preto -1968)
“O pescador me confirmou Que o passarinho lhe cantou Que vem aí bom tempo...” (Bom tempo-1968)
 “Enfim Hoje na solidão ainda custo A entender como o amor foi tão injusto Pra quem só lhe foi dedicação...” (Pois é-1968)
“Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Eu pergunto a você Onde vai se esconder Da enorme euforia...” (Apesar de você-1970)
“Sim, vai e diz Diz assim Que eu rodei Que eu bebi Que eu caí Que eu não sei Que eu só sei Que cansei, enfim Dos meus desencontros Corre e diz a ela Que eu entrego os pontos...” (Desalento-1970)
“Vence na vida quem diz sim...” (Vence na vida quem diz sim – 1972/73)
“Você não gosta de mim Mas sua filha gosta...” (Jorge Maravilha -1974)
“Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer Olhos nos olhos, quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais...” (Olhos nos olhos – 1976)
“Meu caro amigo, me perdoe, por favor Se eu não lhe faço uma visita mas como agora apareceu um portador Mando notícias nessa fita...” (Meu caro amigo – 1976)
“O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia...” (O que será -1976)
“Poeta Poetinha vagabundo Quem dera todo mundo Fosse assim feito você Que a vida não gosta de esperar A vida é pra valer...” (Samba para Vinícius – 1977)
 “Chorei, chorei Até ficar com dó de mim...” (Bastidores-1979)
 “Te encontro, com certeza Talvez num tempo da delicadeza...” (Todo o sentimento-1987)
“Espalho os meus rostos E finjo que finjo que finjo Que não sei.” (A mais bonita -1989)
“Não se afobe, não Que nada é pra já O amor não tem pressa Ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário Na posta-restante Milênios, milênios No ar...” (Futuros amantes-1993)
 “Dentro do seu coração Guarde esta canção inédita...” (Uma  canção inédita-2001)
“Ela faz cinema Ela é assim Nunca será de ninguém Porém eu não sei viver sem E fim...” (Ela faz cinema-2006)
 “Dura a vida alguns instantes Porém mais do que bastantes quando cada instante é sempre...” (Sempre-2006)
E por fim, a mais linda das lindas:
João e Maria (1977) letra de Chico e música de Sivuca




Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?







        

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Assum Preto (Luiz Gonzaga)

        Graças ao meu pai que, assim como minha mãe, sempre se identificou com as músicas de Luiz Gonzaga, desde muito cedo comecei a ouvi-las também. Tenho uma profunda admiração por este artista, que de forma simplória e inigualável, representou tão bem a cultura nordestina, o nosso povo, a nossa gente, levando-a para todos os cantos do país.
       Para mim, Luiz Gonzaga é infância no sítio da minha vó, meus tios, meus pais, é a caatinga do meu cariri, é acordar com o galo cantando, e sair cedinho para caminhar no meio do mato, é banho de rio, é sábado de feira no interior, é panelinha de barro, é noite feliz de São João...

       Adoro todas as músicas do Gonzagão, desde as que possuem um tom mais engraçado, como Forró do Mané Vito “Seu delegado, digo a vossa senhoria Eu sou fio de uma famia Que não gosta de fuá Mas tresantontem No forró de Mané Vito Tive que fazer bonito A razão vou lhe explicar...” sua maneira de falar em meio há algumas músicas, como em Respeita Januário “O nêgo agora tá gordo que parece um major! É uma casemiralascada! Um dinheiro danado!Enricou! Tá rico!” ou ainda sua conversa com o velho pai Januário, em seu retorno para casa, “- Ooooh de casa- Ooooooh de caaaasa - Ninguém…Ai me lembrei do prefixo:- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo- Para sempre seja Deus louvado- Seu Januário?- Sim Senhor!- Tô vindo do Rio de Janeiro seu Januário, trago um recado do filho do Sr., mandou até uma coisinha para colocar na sua mão! Quando vier de lá, traga um pouco de água que eu tô morrendo de sede! Fiquei olhando pela greta da janela! Aí vi o velho acender o candieiro, clareou tudo, aí escutei o timbugado no pote, no fundo do pote, lá no fundo! Tibummmm”, como também as mais lindas, que para mim são: A volta da Asa Branca, “Rios correndo As cachoeira tão zoando Terra moiada Mato verde, que riqueza E a asa branca Tarde canta, que beleza Ai, ai, o povo alegre Mais alegre a natureza”, Triste Partida, “Meu Deus, meu Deus Já outro pergunta Mãezinha, e meu gato? Com fome, sem trato Mimi vai morrer” Qui nem giló “...Mas ninguém pode dizer que vivo triste a chorar Saudade o meu remédio é cantar...”, mas nenhuma delas me emociona e me encanta mais do que Assum Preto.

"Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió (bis)
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus."

Utilizando-me das palavras de Arthur Nestrovski em “Bichos que existem e bichos que não existem (2002)” posso afirmar que:
“É um assum-preto especial. O Nordeste do Brasil está cheio deles. Mas esse era diferente. Era cego. Quer dizer: furaram os olhos do assum, para ele assim cantar melhor. E cantava mesmo. Não podia fugir, não podia voar, só podia ficar cantando. Vai cantar para sempre, na letra mais triste da música mais linda que o Luiz Gonzaga escreveu”.             


Aqui, deixo a letra da música “O rei nas estrelas” do cantor e compositor nordestino Flávio José, de quem também sou fã de longas datas (o que já me rende outras histórias...rss), para, através dela, homenagear o nosso querido e eterno Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

"Quem viu a terra tremer
Quem viu o sol se esconder
Por entre nuvens, quem viu
Quem viu o tempo parar
Sabe também lamentar
Que o rei menino partiu
Mas quem chorou, não se iluda
Que um rei não morre, se muda
Pro reino da ilusão
Lá onde os astros se ouvem
Lá onde mora beethoven
Mora o rei do baião
Luiz, luiz, luiz
Agora és estrela lá no céu
Luiz, luiz, luiz
O povo agradece o teu papel
Luiz, luiz, luiz
A asa branca diz pró sabiá
Enquanto houver sanfona
Um xote e um baião
Seu nome lembrará uma canção
Lá onde os astros se ouvem
Lá onde mora beethoven
Mora o rei do baião"




sábado, 8 de outubro de 2011

Recordo Ainda (Mário Quintana)

RECORDO AINDA (Mário Quintana)

“Recordo ainda...E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...”
("Poesias". Ed. Globo, Porto Alegre, 1962)

Adoro este texto...simplesmente lindo! Sempre me recordo dele quando surge a típica melancolia/nostalgia de início de mês de outubro...

Abaixo, imagens que dizem muito sobre mim e para mim...













































“Sou uma pobre menina... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...”