sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Assum Preto (Luiz Gonzaga)

        Graças ao meu pai que, assim como minha mãe, sempre se identificou com as músicas de Luiz Gonzaga, desde muito cedo comecei a ouvi-las também. Tenho uma profunda admiração por este artista, que de forma simplória e inigualável, representou tão bem a cultura nordestina, o nosso povo, a nossa gente, levando-a para todos os cantos do país.
       Para mim, Luiz Gonzaga é infância no sítio da minha vó, meus tios, meus pais, é a caatinga do meu cariri, é acordar com o galo cantando, e sair cedinho para caminhar no meio do mato, é banho de rio, é sábado de feira no interior, é panelinha de barro, é noite feliz de São João...

       Adoro todas as músicas do Gonzagão, desde as que possuem um tom mais engraçado, como Forró do Mané Vito “Seu delegado, digo a vossa senhoria Eu sou fio de uma famia Que não gosta de fuá Mas tresantontem No forró de Mané Vito Tive que fazer bonito A razão vou lhe explicar...” sua maneira de falar em meio há algumas músicas, como em Respeita Januário “O nêgo agora tá gordo que parece um major! É uma casemiralascada! Um dinheiro danado!Enricou! Tá rico!” ou ainda sua conversa com o velho pai Januário, em seu retorno para casa, “- Ooooh de casa- Ooooooh de caaaasa - Ninguém…Ai me lembrei do prefixo:- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo- Para sempre seja Deus louvado- Seu Januário?- Sim Senhor!- Tô vindo do Rio de Janeiro seu Januário, trago um recado do filho do Sr., mandou até uma coisinha para colocar na sua mão! Quando vier de lá, traga um pouco de água que eu tô morrendo de sede! Fiquei olhando pela greta da janela! Aí vi o velho acender o candieiro, clareou tudo, aí escutei o timbugado no pote, no fundo do pote, lá no fundo! Tibummmm”, como também as mais lindas, que para mim são: A volta da Asa Branca, “Rios correndo As cachoeira tão zoando Terra moiada Mato verde, que riqueza E a asa branca Tarde canta, que beleza Ai, ai, o povo alegre Mais alegre a natureza”, Triste Partida, “Meu Deus, meu Deus Já outro pergunta Mãezinha, e meu gato? Com fome, sem trato Mimi vai morrer” Qui nem giló “...Mas ninguém pode dizer que vivo triste a chorar Saudade o meu remédio é cantar...”, mas nenhuma delas me emociona e me encanta mais do que Assum Preto.

"Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió (bis)
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus."

Utilizando-me das palavras de Arthur Nestrovski em “Bichos que existem e bichos que não existem (2002)” posso afirmar que:
“É um assum-preto especial. O Nordeste do Brasil está cheio deles. Mas esse era diferente. Era cego. Quer dizer: furaram os olhos do assum, para ele assim cantar melhor. E cantava mesmo. Não podia fugir, não podia voar, só podia ficar cantando. Vai cantar para sempre, na letra mais triste da música mais linda que o Luiz Gonzaga escreveu”.             


Aqui, deixo a letra da música “O rei nas estrelas” do cantor e compositor nordestino Flávio José, de quem também sou fã de longas datas (o que já me rende outras histórias...rss), para, através dela, homenagear o nosso querido e eterno Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

"Quem viu a terra tremer
Quem viu o sol se esconder
Por entre nuvens, quem viu
Quem viu o tempo parar
Sabe também lamentar
Que o rei menino partiu
Mas quem chorou, não se iluda
Que um rei não morre, se muda
Pro reino da ilusão
Lá onde os astros se ouvem
Lá onde mora beethoven
Mora o rei do baião
Luiz, luiz, luiz
Agora és estrela lá no céu
Luiz, luiz, luiz
O povo agradece o teu papel
Luiz, luiz, luiz
A asa branca diz pró sabiá
Enquanto houver sanfona
Um xote e um baião
Seu nome lembrará uma canção
Lá onde os astros se ouvem
Lá onde mora beethoven
Mora o rei do baião"




Nenhum comentário: